2016(+10)

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2016 foram dez anos em um. Penso no que acontecia e em como eu estava no início do ano e no que acontece e em como estou agora, e acho que nem consigo me lembrar de todas as reviravoltas entre um ponto e outro. Quem mandou ter uma memória não tão boa assim?

Mas até que ao longo dos meses fui aprendendo a trazer à memória aquilo que me dá esperança. Foi mais do que necessário. Também aprendi um pouquinho a não querer abraçar o mundo inteiro com meus braços limitados. Foi mais do que necessário. Esse foi um ano no qual um tanto de coisa que eu nem imaginava ou sonhava que podiam acontecer, aconteceram. Tanto boas quanto ruins. E entender que isso é só a vida sendo vida mesmo foi mais do que necessário.

Olho pra mim agora, e meu Deus, como ainda preciso mudar! Acho que em nenhum ano fui tão grata por Deus não desistir de mim. Eu sei que dou trabalho, e nunca vou entender completamente isso dEle achar que todo esse trabalho vale a pena. A única resposta possível é agradecer e seguir junto.

Não vou me alongar demais, porque nesse ano também aprendi a ser (um tiquinho) sucinta. A respeitar mais o espaço do outro e a dar valor a seus sentimentos (por mais que não façam sentido pra mim ou que eu não concorde com eles). A apreciar o tempo das coisas (aquela velha história da jornada). A valorizar (mais, sempre só um pouquinho mais) o que realmente importa, as pessoas que eu amo. Só não aprendi a desgostar de parenteses (ainda bem).

2017 não está com cara de que vai ser um ano fácil. Mas no fim das contas, se a gente não pode mudar as situações, o jeito é mudar a forma como reagimos a elas. Até que a vida aqui acabe de vez, ela segue. Então espero, mesmo, que eu trate de aproveitar cada dia que esse novo ano guarda, aprendendo com as surpresas que me esperam a cada esquina. E vê se lembra disso: prioridades, Amanda.

 

O último número

Conto produzido para a
Oficina de Iniciação Literária
da Academia Mineira de Letras

País inteiro concentrado para acompanhar o sorteio dos números da loteria com o maior acumulado da história. Até donos de bilhões apostaram. Vai que dobravam a fortuna? Até donos de migalhas apostaram. Vai que trocavam as migalhas por pão de verdade? Valeria a pena encarar mais uma noite de fome por uma vida com bilhões de pães.

Ele assiste o primeiro número ser retirado do globo. Comprou o bilhete depois de um longo dia de trabalho. Faltavam mais 11 anos até a aposentadoria. 11. Na lata.

Mais um algarismo sorteado, e ele tem também. 42. A idade da mãe quando veio a falecer, deixando um menino de 8 anos. À essa altura, era meio esmirradinho, incompetente, e só daria para trabalho de escritório, como dizia o pai. Com o 8, como já é de se esperar, ele marca a cartela mais uma vez. Pronto, metade dos seis números já foram.

O apresentador retira outra bola, fazendo menção ao prêmio bilionário, que mudaria a vida de um sortudo naquela noite, e é hora da quadra ficar garantida com o 56. Endereço de seu apartamento. A esse ponto, o homem já levanta da cadeira, anda pelo conjugado quarto e sala, e deseja, como em poucas vezes antes, que não morasse sozinho, para que alguém pudesse confirmar que aquilo estava acontecendo de verdade. Não parece. Não condizia com sua vida de dores pacatas.

A quinta bola é cantada, e o homem puxa os cabelos, mal sabendo como lidar com o fato de que pode ser o próximo bilionário do mundo. 1. Quem é que escolhe 1? Com aquele numeral, parece até que estava apostando contra ele mesmo. Nunca foi digno de menções honrosas. Só dava para trabalho de escritório, de fato. Nunca havia sido o primeiro em nada. Talvez o primeiro e único filho de seu pai, o que era louvável. Nenhuma outra criança deveria passar pelo martírio de crescer à sombra do crápula.

Com os olhos fitos no televisor, agarrado a seu bilhete, acompanha a tela perder as cores. Encara a massa preta. Não pode ser! É o último número! Seu último número! Qual é o último número?

Depois de alguns segundos passando os olhos da tela preta para o bilhete para a tela preta, se apressa a ligar o rádio. Demora demais. O locutor já agradece aos ouvintes e volta à programação normal, com os informes oficiais do governo. Qual o sentido de promover um prêmio fora das perspectivas de qualquer trabalhador comum, permitindo que a classe sonhasse com luxos disponíveis apenas a um seleto grupo da população, se não o deixam saber qual é o último número?

Sem mais formas de saber se era o mais novo bilionário da pátria, sai de casa rumo a uma noite mais fria que o normal para o mês de agosto. Nem seria preciso um evento de comoção nacional para fazer com que as ruas estivessem vazias. Os poucos gatos pingados são os que seguem rumo ao turno noturno e não arriscariam seu passarinho na mão por um bilhão deles voando. Pergunta a alguns deles qual foi a última bola do sorteio. Nem sabem.

Percorre os becos até chegar ao centro distrital para ver as telas na vitrine da loja de eletrônicos. Todas sintonizadas no canal oficial do governo, que transmite um educativo do novo sistema de troca das horas de trabalho por vales de alimentação, higiene e lazer nos postos de recolhimento. Nada do último número.

“Devem sair na próxima edição do informativo oficial do governo”, pensa. Mas está elétrico demais para ir para casa e repousar enquanto espera para retirar seu folhetim na manhã seguinte. Vira a esquina e vai a seu local de trabalho. Organiza o que já estava organizado no único cubículo iluminado aquela noite. Cogita apontar os lápis gastos nos cubículos dos colegas, mas é invasão demais, desiste. Aponta toda sua caixa até não haver mais lápis. Limpa a sujeira.

Prevenido, como todo menino que só dá para serviço de escritório, gasta as horas seguintes fazendo o trabalho do restante da semana. Não quer deixar nenhum companheiro de cubículo na mão se desaparecer de uma hora para outra. É comedido, mas não tanto para chegar a bater ponto depois de embolsar os bilhões com seu último número.

Checa os números da contabilidade do projeto mais recente. Pensa no último beijo que recebeu da mãe em seu leito de morte. Prepara a planilha de gastos da próxima remessa. Pensa em cada vez que recebeu uma surra de seu pai por apanhar na escola e não revidar. Confere a redação do relatório fiscal do subsetor. Pensa em como a luz do seu conjugado quarto e sala nunca mais vai acender às cinco e meia da manhã se aquele último número for mesmo dele. Talvez seja até bom não dividir o espaço com ninguém, reflete o homem. Ninguém dará falta dele. Ninguém o importunará com seus bilhões.

Sai do sistema operacional. Checa a hora. O folhetim já deve ter saído. Com o cabelo desgrenhado e olhos em chamas pela noite em claro, vai à banca da esquina. O jornaleiro acaba de dispor os cadernos na pequena estante. Lembra das cassetadas na nuca com jornal enrolado a cada vez que não respondia a uma pergunta importuna do pai. É agora. Aperta o passo. Esbarra em um estudante apressado para a aula. Esboça uma desculpa. Fecha os olhos frente à banca. Respira. Expira. Encara a manchete.

“1. 8. 11. 42. 56. 60. Prêmio acumulado!”

60. Nem após a morte lhe deixava em paz. Era como se gargalhasse em sua cara. Apostou em 59, idade em que o velho homem finalmente havia partido dessa com certeza para pior. 60. Um recado do pai, que ainda ria por último. De suas dores pacatas, de seu conjugado quarto e sala, de seu cubículo. Acompanha as gargalhadas póstumas do defunto. De sua falta de amor, falta de quem fosse sentir sua ausência, e a mais recente descoberta falta de esperança. Que se dane a quina. Rasga o bilhete.

Sequestros

Tenho estado distante daqui, eu sei. Ultimamente é como se eu soubesse de tantas coisas, mas sem significação nenhuma. Não por não fazerem sentido, mas por não trazerem mudança. Tenho um grave problema com desculpas. Mesmo as com razão. Então prometo (a mim mesma) parar de apenas saber das minhas faltas, falhas e ausências, e de fato fazer algo para que deixem de sê-las.

Mas esse não é um recado de lamento, pelo contrário. Um dos motivos pelos quais não tenho aparecido muito pelas bandas das afinidades de cá, é que o Sobrado 518 entrou no ar. Já está lá, lindinho com reflexões sobre arte, cultura e cristianismo, incluindo o Janela, podcast que virou meu xodó. Passem por lá e espalhem por aí.

Posso demorar um tiquinho mais, mas esse espaço ainda fica dedicado ao que esparrama, grita, pula, dorme, dói, se contorce e produz qualquer outro tipo de movimento aqui dentro de mim. O reino das minhas subjetividades. E não quero ser sequestrada delas. Então, até daqui a pouco. (Espero que pouquíssimo mesmo.)

Formas, funções e revelações

Ler Sidney Lumet dando um panorama da produção de suas obras em Fazendo Filmes vem se mostrando uma grata surpresa. Despretensioso e sincero, suas explicações e reflexões falam bastante dos percalços e dos prazeres de levar histórias às telas. A despretensiosidade talvez seja responsável por fazer a leitura ser tão gostosa, e a sinceridade por fazer com que o amor de Lumet por essa arte fique tão latente que não tem como não afetar o leitor.

Creio que ele seria um cara de quem Rookmaaker, depois de sondar o território, gostaria em partes. O caminho inverso também seria verdadeiro. (E Steve Turner amaria apenas fazer parte dessa conversa.)

“Discussões de estilo como algo totalmente desligado do conteúdo do filme me deixam furioso. A forma segue a função – nos filmes também. Eu percebo que há muitas obras de arte que são tão belas que não precisam de qualquer justificativa. E talvez alguns filmes não quisessem outra coisa senão ser belos, ou ser apenas um exercício ou experimento visual. E os resultados podem ser extremamente emocionais porque só devem ser belos. Mas não comecemos a usar termos empolados como técnica visual ideal da tragédia’.

Fazer filme sempre gira em torno de contar uma história. Alguns filmes contam uma história e nos deixam com uma impressão. Alguns contam uma história e nos deixam com uma impressão e nos dão uma ideia. Outros contam uma história, nos deixam com uma impressão, nos dão uma ideia e revelam alguma coisa sobre nós mesmos e os outros. E certamente o modo como se conta a história deve relacionar-se de alguma forma com o que a história é.

Porque isto é o que é estilo: o modo como se conta uma determinada história. Depois da primeira decisão crítica (‘De que trata esta história?’) vem a segunda decisão mais importante: ‘Agora que sei sobre o quê é o filme, como devo contá-lo?’. E esta decisão afetará todos os departamentos envolvidos no filme que está para ser feito.” (Sidney Lumet em Fazendo Filmes, p. 52-53)

Sonhei com você

Sonhei com você.
Sonhei que você era gentil com idosos, sabia tocar piano e conhecia Lamartine Babo.
Sabe, eu quase nunca sonho, então sonhar com você parece algo bem significativo.
E eu sei que a gente sempre sonha, só não lembra muito deles pela manhã.
Às vezes recordo mais dos sonhos que tive durante as sonecas da tarde.
(Sempre disseram que sou do contra. Discordo disso também.)
Igualmente, não tenho muitos daqueles sonhos que a gente sonha acordado.
Prefiro mesmo planos.
Acho que você é do tipo sonhador. E mesmo assim, mesmo assim, a gente se dá bem.
Mas, quando eu acordar, como é que vou saber? Eu nem te conheço. Você é sonho.
Você é sonho.

Problemas didáticos

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Outro dia um amigo comentava sobre como é difícil se adaptar. Da forma como vejo a coisa, na verdade é fácil demais. O ser humano, esse centro do universo multiplicado por 7 bilhões, se acostuma rapidinho. Talvez seja esse o problema.

A equação das perdas e dos ganhos é inevitável. Se a mudança é bem-vinda, focamos tanto nos lados bons da coisa que acabamos não dando atenção ao que fica para trás e que se perde no caminho. Caso seja importuna, é natural se sentir como em um beco sem saída, sem perceber que talvez aquela seja a chance de aprender a escalar. A gente não equilibra o livro de contabilidade. Talvez seja esse o problema.

Quando Newton falou de inércia, para que os corpos permanecessem em estado natural ou em repouso, não deveriam existir variáveis. Mas elas estão em todo lugar. Quando forças externas são exercidas e algo muda, nunca é trocar seis por meia dúzia. Escolher tentar permanecer inerte já é mudar também. E é lutar contra no lado errado. Talvez seja esse o problema.

Na teoria de Darwin, não é a mais forte nem a mais inteligente das espécies que sobrevive, mas a mais adaptável às mudanças. Quem dera ele tivesse sido sociólogo, e concluído que a convivência humana não é uma guerra, e que todos vivem melhor quando todo mundo está bem e se adapta direitinho, sem lutar só para sobreviver. Talvez seja esse o problema.

Gritos de guerra

Ando pelos cantos procurando tanto
O que me faça ver o belo surgir no concreto
Suspirando a dor de não morrer de amor

Ando pelo campo catando estilhaços
De quem lutou antes de mim nessa batalha
E saiu dela com o corpo em pedaços

Gritos de uma guerra interna
Do pensamento que faz sangrar
Armados de medo e tristeza
Do sentimento que faz torturar
Alguém me passe uma lanterna
Pra noite escura iluminar
Na manhã quero a certeza
Da esperança ver raiar

Tramas não contadas nos livros de história
Mas que não se perdem, guardadas na memória
De quem ainda vive pra contar
Dos erros e segredos, dos desentendimentos
Da luta por poder que não vê que a vitória está
Nas mãos de quem deixa a vitória pra lá
Declara sua própria guerra onde só há perigo
De sair dela feito de novo, melhor consigo

Toda guerra do mundo cabe aqui dentro

Quando baixo minhas armas e deixo o amor cair
Não luto mais sozinho
Sei quem me salva de mim